terça-feira, 2 de setembro de 2014

O Engenho dos Sonhos



Carina Portugal é uma jovem escritora portuguesa de literatura fantástica cuja prosa se caracteriza por uma notável imaginação, prosa delicada e uma encantadora visão inocente com que explora o lado mais tradicional da ficção fantástica. Publica agora na plataforma Smashwords uma colectânea de alguns dos seus contos e poemas, reunindo alguma da obra dispersa no Fantasy & Co e nas suas páginas pessoais. É gratuito e pode ser lido facilmente em pdf, epub, mobi ou no browser. Visitem, leiam e apaixonem-se pela prosa simples e imaginário desta escritora: O Engenho dos Sonhos. E já que estão pelo Smashwords aproveitem e levem também o belíssimo steampunk de Coração de Corda, também desta promissora autora.

domingo, 11 de maio de 2014

O Senhor da Guerra dos Céus


Michael Moorcock (2009). O Senhor da Guerra dos Céus. Edições Saída de Emergência.

Este livro é uma intrigante e bem urdida experiência de Moorcock no campo das ucronias. A história do Capitão Bastable, oficial colonial que ao tentar pacificar uma discreta mas aguerrida tribo que se mantém irredutível numa misteriosa cidade doa Himalaias se vê no meio de um arrasador terramoto e desperta décadas depois num quase irreconhecível mundo futuro replica um elemento clássico da ficção fantástica, do Rip van Winkle de Irving ao John Carter de Burroughs ou Buck Rogers de Nowlan, todos heróis que acordam em futuros longínquos ou mundos de fantasia.

Moorcock aproveita para fazer um delicioso What If, equacionando um século XX onde as potências ocidentais não se aniquilaram nos campos de batalha da Flandres. O imperalismo colonialista que caracterizou o final do século XIX é aqui extrapolado pelo século XX dentro, com as tensões do Grande Jogo colonial mantidas artificalmente vivas por um consenso entre as Potências que incluem, para além dos suspeitos do costume, uns Estados Unidos fãs de estenderem o manto de protectores sobre a Indochina, um assertivo império nipónico que vai modelando um novo Japão numa China dividida entre enclaves coloniais e territórios controlados por senhores da guerra, e um império russo que cedeu às pressões democratizantes mas não se desagregou em sovietes. Resta, como esperança de um mundo diferente e pós-colonial, um senhor da guerra chinês que congrega no seu bem defendido território anarquistas, rebeldes e dissidentes de todo o mundo e desenvolve novas armas capazes de defrontar as bem armadas frotas de dirigíveis imperiais - ágeis aeronaves mais pesadas do que o ar, capazes de abater os pesados zeppelins, e uma arma suprema desenvolvida por físicos dissidentes que será lançada sobre a cidade japonesa de Hiroshima, ponto de encontro das frotas aladas aliadas que se congregam para aniquilar a cidadela do progressista senhor da guerra que está a provocar inquietação em todo o mundo colonizado.

É neste cenário que se move Bastable, salvo das ruínas himalaias por um dirigível da polícia fronteiriça do Raj anglo-indiano. É levado às glórias urbanas de Bombaim e Londres, cidades que resplandecem de utopia retro-arquitectónica. Atravessa os domínios do império ao serviço de um dirigível de transporte que o leva às américas. Ao perder a paciência com um passageiro excepcionalmente cretino é obrigado a despedir-se, e arranja emprego como aeronauta com um misterioso capitão que acaba por se revelar um dos rebeldes que ameaça a segurança e estabilidade do império. A sua primeira reacção é de intenso patriotismo, mas falha ao tentar aprisionar os rebeldes. Estes revelam-se menos violentos do que esperavam, e levam Bastable ao covil do senhor da guerra, mostrando-lhe o outro lado da utopia imperialista: os povos colonizados, com direitos negados na sua própria terra, permanentemente subalternizados e explorados. Bastable vai-se transmutando de fiel servo de Sua Majestade num homem realista, capaz de perceber os vícios institucionais e com vontade de combater as injustiças que grassam no mundo. Algo que tem o seu quê de retrato da humanidade num século que começou imperial e colonialista mas terminou fragmentado em nacionalismos exacerbados.

A linguagem visual de Moorcock dá a este livro um carácter apaixonante. O périplo por este futuro retro de uns anos 70 do século XX diametralmente diferentes do que realmente foram é nos dado por uma linguagem clara que nos deixa a imaginar um estilismo que mistura o lustro art-deco com a ornamentação belle-époque e o visual tecnológico dos primórdios da era industrial. Em essência, a iconografia do que mais tarde iremos apelidar de estilo steampunk, mas neste livro um constructo ficcional que tenta criar um mundo alternativo com verosimilhança visual e se inspirar nos estilos que marcaram o início do século XX. A desejável imutabilidade imperial está patente na permanência de uma elegância mais à vontade no 1900 do que no 2000.

Talvez o momento em que este livro melhor revela a sua riqueza ficcional é o da empolgante batalha que opõe uma armada de dirigíveis imperiais aliados às forças tecnologicamente mais flexíveis do senhor da guerra, um momento excepcional num livro já de si de excepção. Este é o verdadeiro senhor da guerra dos céus, um Robur asiático amante dos ideais de libertação.

Um merecido clássico da literatura de ficção científica, de leitura compulsiva, e um digno inspirador da estética steampunk. A ousada iconografia desta obra de Moorcock é uma das centelhas do movimento, fonte de inspiração para a sua estética tão especial. A edição portuguesa da Saída de Emergência é uma excelente forma de mergulhar neste fantástico mundo ficcional.

domingo, 6 de abril de 2014

Utopias 2014


Foi assim, ontem no Centro Cultural de Cascais, onde decorreu o workshop Visões de Utopia no âmbito do Utopias 2014. Seis participantes a descobrir um vislumbre da vasta história da FC, a folhear o que se fez e se faz por cá nos domínios da FC & F, e ideias arrojadas a serem reconstruídas e intepretadas em micro-ficções e vinhetas gráficas. Foi uma experiência muito recompensadora. Apesar de estar a falar sobre temas que me intrigam e um género literário que me apaixona estava muito longe da minha zona de conforto no que toca a dinamizar workshops. Das vezes que já o fiz teve mais a ver com colocar professores a descobrir que o 3D não é tão difícil quanto isso do que fazer algo no campo literário. Fui como leitor e fã, para partilhar ideias e desafiar os participantes a brincar com percepções sobre tecnologias de vanguarda que nos prometem futuros. Espero que tenham gostado. Fiquei com a sensação que sim.



Parece, mas não, não passei o tempo a ler os livros e revistas de FC e fantástico portuguesas que ensaquei e acartei para o espaço que me foi destinado no Centro Cultural de Cascais. Os responsáveis do Centro, quando lá passei a fazer o reconhecimento prévio do espaço no dia anterior, disseram-me que aquele era o espaço possível porque era o único onde havia uma parede branca para projectar. Sem o saber fizeram-me um favor. Teve um gostinho especial conversar sobre estes temas no meio da obra pictórica do Pedro Zamith, tão próxima das estéticas da BD e dos comics.

A imagem foi do momento de trabalho, onde os participantes iam escrevendo micro-contos e íamos conversando sobre os livros que estavam disponíveis para pegar, folhear, ler e descobrir o nosso manancial do género. É interessante ver como o design do Almanaque Steampunk deslumbra quem nele pega, que a Bang! desperta a atenção pela sua existência, e que todos têm memórias da lendária colecção de capa azul da Caminho. Tinha planeado que o workshop terminasse com uma hora dedicada à leitura, mas acabou por se desenrolar em leituras e conversa sobre ideias de futuros.


Em breve ficarão online as notas e materiais que organizei para o workshop. Já o ebook vai demorar mais um pouquinho. Há que transcrever os textos. E também preciso de descansar um pouco. Mas não muito, que os meus relógios cerebrais já me recordaram que outros desafios estão a aproximar-se dos prazos de necessárias conclusões.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Palmas para o Esquilo


David Soares, Pedro Serpa (2013). Palmas para o Esquilo. Lisboa: Kingpin Books.

A simplicidade luminosa do traço de Perdo Serpa contrasta com o peso das palavras de David Soares. Palmas para o Esquilo mergulha-nos numa reflexão profunda sobre as fronteiras difusas que separam o sonho da alucinação e a criatividade da loucura. Da base narrativa, que nos leva a visitar duas personagens residentes num manicómio simbolicamente pintado de amarelo, constrói-se uma reflexão a partir da análise de pulsões e alucinações. Sublinha uma concepção romântica de inquietude do espírito criativo, mostrando que as fronteiras entre sonhos insanos, delírios imaginários e a busca incessante por novas ideias não são estanques e, em casos limite, podem ser uma mera questão de pontos de vista. Tudo isto embrulhado de forma simpática num tom de aparente inocência trazido pela simplicidade do esquema de cores e do traço do ilustrador.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

As Minas de Salomão


Que mistérios se ocultam nas profundezas das selvas africanas? Quantas aventuras poderemos ter entre tribos perdidas, civilizações esquecidas e ruínas de velhas cidades devoradas pela floresta verdejante? No centro dos mistérios encontramos a misteriosa raínha branca, talvez imortal, capaz de levar os homens à loucura com o seu olhar.

As aventuras de Allan Quatermain estão entre o que há de mais clássico no romance de aventuras africanista do século XIX e XX. Percursor de Tarzan e tantos outras personagens que se aventuram no coração selvagem das trevas das selvas africanas, H. Ridder Haggard encantou e encanta gerações com as suas histórias de aventura no continente negro, na época um ainda lugar misterioso com uma aura selvagem. Foi traduzido para português por Eça de Queirós e o Projecto Adamastor acaba de lançar uma nova revisão e formatação em suporte digital. Visitem a página do livro no site do projecto e descarreguem para ler este clássico da literatura empolgante num tablet, telemóvel ou e-reader: As Minas de Salomão.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Robopocalipse


Daniel Wilson (2014). Robopocalipse. Lisboa: Bertrand.

As especulações e antevisões sobre a robótica são o elemento mais interessante deste livro . O autor é investigador na área e isso nota-se nas suas descrições tecnicamente plausíveis de robots construídos pelo homem, robots auto-evoluídos e inteligências artificiais, uma das quais é afectada por um complexo deificador napoleónico que a leva a tentar dominar o planeta e a exterminar a humanidade para, paradoxalmente, a proteger. A narrativa é divertida e escrita a bom ritmo, com uma história que parte de premissas e conceitos interessantes e actuais cujo senão é desenrolar-se como uma aventura simplista. Confesso que estou indeciso entre saudar a Bertrand por publicar este livro de Ficção Científica, apesar de não o tornar explícito nas colecções que edita, ou de refilar com um bolas, com tanta coisa boa que se faz em FC vão logo publicar um romance mediano. Mas, precisamente por ser um livro simples, diria que é uma boa leitura para leitores adolescentes a despertar para as maravilhas da ciência e tecnologia.

Em termos puramente literários Robopocalypse não é grande coisa. A escrita é sólida, mas totalmente previsível. Nunca é muito bom perceber-se qual é o fio narrativo e como o livro vai acabar logo nos primeiros parágrafos. A leitura das restantes páginas torna-se penosa, e é pena, porque o que falta em estilo literário é amplamente complementado por conceitos de robótica avançada aplicados à linha do romance. Neste aspecto o livro brilha com conceitos que vão de andróides que adquirem sentiência ao trabalho de cientistas otakus que transferem as suas emoções para robots humanóides e trabalham para lhes dar um espírito dir-se-ia que humano. As personagens deste livro têm de enfrentar ao longo da sua odisseia uma vasta gama de criações robóticas adaptadas que vão de minas automáticas a carros autónomos, todas cooptadas por uma inteligência artificial que na sua décima segunda iteração se liberta do confinamento num laboratório seguro e tenta exterminar a humanidade. De todas as criações destacaria os cyborgs híbridos criados pela IA renegada e uns muito arrepiantes robots capazes de reanimar humanos mortos. Adoraria ver estes renderizados e animados em 3D.

Inteligência Artificial renegada, extermínio, guerra... está-se mesmo a ver por onde é que este livro vai. Após os primeiros momentos de extermínio a humanidade reorganiza-se e dá uma coça aos robots. Com ajuda de alguns que no processo se tornaram inteligências autónomas e estão tão pouco dispostos a servir humanos como a servir überIAs. Se como obra literária este livro deixa muito a desejar, certamente que terá futuro no cinema. A narração lê-se como um guião, cheia de diferentes pontos de vista, e o tema adapta-se particularmente bem a uma produção cheia de efeitos especiais que se for cuidada poderá criar um filme memorável que capture os interessantes conceitos que estão na espinha dorsal desta obra.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Oceano no Fim do Caminho



Neil Gaiman (2014). O Oceano no Fim do Caminho. Lisboa: Presença.

Entre o hype mediático e a ansiedade dos fãs de Gaiman este era talvez um dos livros mais aguardados do momento. O autor não desilude, trazendo-nos um dos seus já habituais contos em que as barreiras do real são difusas e personagens em jornadas de auto-descoberta se cruzam com criaturas míticas, forças ocultas e segredos milenares.

Apesar de definido com um livro "adulto", estruturalmente parece muito similar a Coraline, só que em vez de uma rapariga que se sente ignorada pelos pais temos um rapaz que vive com o nariz enfiado nos livros como herói, as forças malévolas não estão do lado de lá do espelho mas vêm de terras e tempos distantes paralelos ao nosso, as personagens secundárias excêntricas que ajudam Coraline são aqui três mulheres de idade incerta que vigiam a eternidade e são vagamente insinuadas como mitos encarnados que se manifestam na mais nova, com o aspecto de uma criança, que salva o ingénuo rapaz amante de livros de ameaças de criaturaras aparentemene todo poderosas. O oceano no lago é um portal para outras eras e geografias de onde se escapa uma criatura que nada mais quer fazer do que agradar, e para isso afoga as suas vítimas em riquezas. E há um gato, claro. Uma história de Gaiman com uma criança a descobrir um mundo onde realidade e fantasia se misturam sem um gato misterioso que se torna companheiro inseparável do inocente personagem principal, bem, não seria uma história de Gaiman.

O Oceano no Fim do Caminho é um típico livro de Neil Gaiman, escritor formulaico cujas narrativas seguem sempre a mesma estrutura, apenas variando os adereços visuais das aventuras dos seus personagens. O que safa Gaiman é a sonoridade da sua prosa, que encanta, embala e deixa o leitor embrenhar-se na história. Gaiman faz parecer fácil o contar de uma boa história.