Numa palestra recente sobre o futuro das bibliotecas, Neil Gaiman faz uma brilhante apologia do livro e da literatura como recreio da mente, assumindo o mergulho em mundos de fantasia como um recreio para a imaginação que nos enriquece enquanto pessoas. Toca de forma brilhante em vertentes aparentemente tão díspares quanto o carácter preditivo da ficção científica e sua influência sobre cientistas e engenheiros, liberdades de escolha literária, o saber dar espaço às crianças para desenvolverem o seu gosto sem imposições externas, bibliotecas como centros que permitem acesso gratuito à cultura. E, essencialmente, da leitura como porta de acesso e estímulo à imaginação humana, libertando a mente, abrindo novos horizontes e estimulando o desenvolvimento individual.
Gaiman termina citando Einstein, dizendo que "asked once how we could make our children intelligent. His reply was both simple and wise. "If you want your children to be intelligent," he said, "read them fairy tales. If you want them to be more intelligent, read them more fairy tales." He understood the value of reading, and of imagining. I hope we can give our children a world in which they will read, and be read to, and imagine, and understand." Mas talvez a melhor frase em que Gaiman sintetiza com precisão onde quer chegar com a sua mensagem é um tornear da ideia de Tolkien que aqueles que mais lutam contra o escape às normalidades são habitualmente carcereiros. Ler, descobrir, imaginar são acções que quebram grilhões. Leiam aqui, em inglês, tudo o que o autor tem para dizer. Porque vale a pena: Why Our Future Depends On Libraries, Reading and Daydreaming.
O projecto Livros de Utopia visa estimular a leitura nos géneros de Ficção Científica e Fantástico em crianças e jovens.
domingo, 27 de outubro de 2013
domingo, 6 de outubro de 2013
Porquê ler FC?
Porquê ler Ficção Científica e Fantástica? Podemos pensar em muitas razões que vão da exposição à imaginação pura à capacidade de especulação com base em conceitos científicos. No que toca à aprendizagem de línguas maternas e não maternas, estímulo ao gosto pela leitura e abordagem aos elementos das estruturas narrativas e gramática o Plano Nacional de Leitura dá-nos um conjunto de razões pertinentes para descobrir estes géneros literários, caracterizando-os de acordo com a sua estrutura e potenciais formativos:
Estrutura:
• Relato de acontecimentos que pelo facto de se desenrolarem no futuro ou em mundos paralelos incentivam uma utilização muito livre das várias estruturas típicas da narrativa.
• A sequência que pode ser ou não cronológica inclui geralmente o recurso ao flash-back e projecções no futuro.
• As personagens – seres humanos deslocados do seu ambiente, indivíduos com poderes especiais, extraterrestres, etc. – combinam exotismo e credibilidade pois as emoções e sentimentos, embora muito circunstanciados, são afinal os de sempre.
• Encontros, conflitos, peripécias variadas funcionam com pretexto para apresentar ao leitor tecnologias inéditas, feitiçarias.
• As histórias desenrolam-se em lugares imaginários, outros planetas, a quarta dimensão, a Terra no futuro, cidades reais modificadas, recantos do mundo com um toque mágico, etc.
• A linguagem recorre com frequência a longas descrições, sem no entanto prescindir dos diálogos. Inclui vocabulário e construções gramaticais pouco vulgares e em certos casos, linguagens alternativas.
Potencial formativo:
• Estimula a imaginação e desafia o leitor a posicionar-se noutros universos.
• Desenvolve a capacidade de ler textos que intercalam tempos diferentes.
• Oferece cenários que extravasam o conhecimento do mundo real e estimulam o desejo de conceber espaços originais.
• Permite a evasão dos problemas e tensões do quotidiano através do convívio com personagens que possuem características e poderes próprios do sonho.
• Contribui para o enriquecimento do vocabulário.
• Promove a compreensão de construções gramaticais menos frequentes.
(Retirado do website do PNL)
Estrutura:
• Relato de acontecimentos que pelo facto de se desenrolarem no futuro ou em mundos paralelos incentivam uma utilização muito livre das várias estruturas típicas da narrativa.
• A sequência que pode ser ou não cronológica inclui geralmente o recurso ao flash-back e projecções no futuro.
• As personagens – seres humanos deslocados do seu ambiente, indivíduos com poderes especiais, extraterrestres, etc. – combinam exotismo e credibilidade pois as emoções e sentimentos, embora muito circunstanciados, são afinal os de sempre.
• Encontros, conflitos, peripécias variadas funcionam com pretexto para apresentar ao leitor tecnologias inéditas, feitiçarias.
• As histórias desenrolam-se em lugares imaginários, outros planetas, a quarta dimensão, a Terra no futuro, cidades reais modificadas, recantos do mundo com um toque mágico, etc.
• A linguagem recorre com frequência a longas descrições, sem no entanto prescindir dos diálogos. Inclui vocabulário e construções gramaticais pouco vulgares e em certos casos, linguagens alternativas.
Potencial formativo:
• Estimula a imaginação e desafia o leitor a posicionar-se noutros universos.
• Desenvolve a capacidade de ler textos que intercalam tempos diferentes.
• Oferece cenários que extravasam o conhecimento do mundo real e estimulam o desejo de conceber espaços originais.
• Permite a evasão dos problemas e tensões do quotidiano através do convívio com personagens que possuem características e poderes próprios do sonho.
• Contribui para o enriquecimento do vocabulário.
• Promove a compreensão de construções gramaticais menos frequentes.
(Retirado do website do PNL)
domingo, 29 de setembro de 2013
Cinco Livros
Cinco livros para descobrir a ficção científica. A sugestão partiu do crítico britânico Damien Walters, que pensou em cinco obras capazes de mostrar aos leitores desconhecedores do género o poder das ficções especulativas e fantásticas, que vai mais além do lado confessamente divertido das naves espaciais e lutas com raios laser no espaço. Walters sugere The Sparrow de Mary Russell, Pattern Recogntion de William Gibson, A Mão Esquerda da Escuridão de Ursula K. LeGuin, The Player of Games de Iain M. Banks e China Mountain Zhang de Maureen McHugh. Destes, apenas LeGuin e William Gibson têm obras publicadas em português e merecem a leitura.
Em portugês, o blogger e jornalista João Campos seleccionou cinco excelentes livros que são uma boa introdução ao género, quer em termos de ideias quer de qualidade literária: Um Cântico para Leibowitz de Walter Miller Jr., Flores para Algernon de Daniel Keyes (desafio quem quer que seja a não se emocionar com este livro), O Tormento dos Céus de Ursula K. LeGuin, A Guerra Eterna de Joe Haldeman e O Homem Duplo de Philip K. Dick. Estes livros foram editados em português. Alguns são difíceis de encontrar nas livrarias, mas normalmente encontram-se nas livrarias online a preços convidativos.
As minhas escolhas são mais abrangentes e olham para a FC e para as transgressões literárias que atravessam géneros. Sugiro As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, Olá América de J.G. Ballard, Laranja Mecânica de Anthony Burgess, Babel 17 de Samuel R. Delany e qualquer livro de Ray Bradbury. Calvino e Bradbury encontram-se sem dificuldade nas livrarias, os restantes é um pouco mais difícil.
Em portugês, o blogger e jornalista João Campos seleccionou cinco excelentes livros que são uma boa introdução ao género, quer em termos de ideias quer de qualidade literária: Um Cântico para Leibowitz de Walter Miller Jr., Flores para Algernon de Daniel Keyes (desafio quem quer que seja a não se emocionar com este livro), O Tormento dos Céus de Ursula K. LeGuin, A Guerra Eterna de Joe Haldeman e O Homem Duplo de Philip K. Dick. Estes livros foram editados em português. Alguns são difíceis de encontrar nas livrarias, mas normalmente encontram-se nas livrarias online a preços convidativos.
As minhas escolhas são mais abrangentes e olham para a FC e para as transgressões literárias que atravessam géneros. Sugiro As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, Olá América de J.G. Ballard, Laranja Mecânica de Anthony Burgess, Babel 17 de Samuel R. Delany e qualquer livro de Ray Bradbury. Calvino e Bradbury encontram-se sem dificuldade nas livrarias, os restantes é um pouco mais difícil.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Jetpack
As fronteiras literárias não são tão rígidas quanto parecem. Mas quando aqueles géneros de que gostamos parecem ser menorizados, recordem-se: se calhar gostariam de ter qualquer coisa... mais brincadeiras interessantes com as leituras fantásticas no You're All Just Jealous Of My Jetpack.
sábado, 21 de setembro de 2013
Bang!
Sabias que podes ler uma revista sobre ficção científica e fantasia em português completamente gratuita? A revista Bang!, editada pela Saída de Emergência, está disponível nas livrarias Fnac de quatro em quatro meses. Não custa nada, é só levar... a Bang! está cheia de novidades sobre literatura fantástica, banda desenhada, contos de autores portugueses e estrangeiros, e sugestões literárias para descobrir. Também pode ser lida em formato digital, sem custos. Para descarregar todas as edições da revista visitem a página Revista Bang!. Divirtam-se com leituras fantásticas!
A Estranha Vida de Nobody Owens
Edição portuguesa da Presença: A Estranha Vida de Nobody Owens.
A Estranha Vida de Nobody Owens, cujo título original é The Graveyard Book, pega num velho tema de Gaiman: a viagem enquanto processo de descoberta. Esta passa-se toda num mesmo local. A verdadeira viagem é o crescimento do personagem. A obra passa-se num cemitério, que alberga uma colecção eclética de personagens falecidas e um muito especial, o jovem Nobody Owens, que se refugiou no cemitério quando ainda mal podia andar e foi adoptado pelos fantasmas que habitam por entre os túmulos e guardado por um guardião que nem está vivo nem morto. A família real de Nob, como o rapaz é conhecido, foi assassinada por um assassino misterioso. As mortes tiveram um objectivo: travar o nascimento de uma criança capaz de viver na fronteira entre a morte e a vida e que ameaçaria a existência de uma ordem tenebrosa e misteriosa. Num retoque típico de romance fantástico, é precisamente a acção levada a cabo para travar a ameaça que cria a ameaça que destrói aqueles que a temem. Os vilões nunca aprendem a ficar quietinhos.
É a prosa de Gaiman com o seu estilismo poético o que mais fascina o leitor. A história desenrola-se com uma certa previsibilidade esperada. Com personagens que brincam com as convenções do género e uma facilidade na elegância da liguagem que faz parecer simples algo que é muito difícil de conseguir, A Estranha Vida de Nobody Owens é uma leitura que só se deixa terminar quando se vira a última página e se lê a última palavra, desapontado porque... terminou o mergulho em mais um mundo fantástico criado pelo maior escritor contemporâneo de fantasia. Neil Gaiman é um mestre da literatura fantástica que está no auge das suas capacidades. Encontrou a sua fórmula e explora-a, fascinando os seus leitores. Muitos são os escritores que encontram o seu nicho, mas são poucos os que o conseguem fazer com genialidade. Gaiman pertence a este reduzido grupo.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Little Brother: O Futuro Já Começou
Quando é que um romance de ficção científica é também um manual de sistema operativo? Neste Little Brother: O Futuro Já Começou, por detrás de uma aparentemente inócua história de um rapaz que se vê em aventuras e desventuras enquanto combate injustiças, está uma potente reflexão sobre privacidade, poder dos media, direitos e liberdades individuais, equilíbrio entre os poderes dos estados e direitos dos cidadãos, e aproveitamentos políticos da paranóia associada à guerra ao terrorismo.
Rebusca, intencionalmente, os estereótipos de injustiça absoluta aplicada ao desventurado herói, que tem de sofrer os piores percalços, as mais gritantes injustiças e até tortura numa luta em que os valores da liberdade acabam por triunfar. É uma clássica história de luta do bem contra o mal, só que aqui o bem são os hackers libertários da cultura digital e o mal as legislações opressivas levantadas pelos estados em nome da segurança.
Há um objectivo expresso por pelo autor, Cory Doctorow: ensinar os jovens leitores a usar a tecnologia digital, apropriando-se dos meios tecnológicos para afirmar a sua liberdade individual. Utiliza a literatura juvenil para informar e galvanizar os espíritos sobre temas quentes da actualidade, ligadas à privacidade, segurança online, e as lutas entre uma cultura livre e os interesses políticos e económicos que alegam necessidades imperiosas para imporem limitações que ultrapassam o razoável.
Este autor é um conhecido activista dos direitos digitais, notório pela acérrima defesa da cultura livre . Publica habitualmente os seus livros em formatos tradicionais e também sob licenças creative commons para download sem restrições.
Mais do que uma história, este livro é um manual de subversão. Na narrativa da luta contra as injustiças do jovem hacker ético do livro, Doctorow explora com profundidade formas de luta social e tecnologias que defendem as liberdades e direitos individuais. Enquanto nos compadecemos com a luta sem quartel do jovem Marcus, M1k3y no mundo online, contra os poderes instituídos dos sistemas escolares restritivos, que sobrepõem a indotrinação sobre o espírito de livre arbítrio, e contra as agências governamentais que em nome da segurança atropelam os mais elementares direitos humanos, aprendemos sobre criptografia, o espírito da cultura hacker (que não, não é prejudicar mas sim colocar nas mãos dos utilizadores o controlo da tecnologia que utilizam), smart mobs, flash mobs, cultura livre, movimento opensource, redes sem fios, direitos civis e novas formas de organização à margem da tradição partidária potenciadas pelas tecnologias digitais.
Misto de história juvenil com manual de instruções para derrube inteligente de regimes totalitários, Little Brother vale essencialmente pela profundidade com que aborda, para um público juvenil, temas que o impacto da internet nos sistemas sociais, políticos e económicos tornaram basilares nas lutas pelo controle da sociedade do presente. É um livro escrito com o propósito expresso de fazer pensar, o que já de si é altamente louvável.
A edição portuguesa está editada pela Presença. Os leitores mais fluentes em inglês podem ler gratuitamente este livro, disponível no site do autor: Little Brother.
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