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domingo, 7 de setembro de 2014

As Histórias de Terror do Tio Montague


Chris Priestley (2012). As Histórias de Terror do Tio Montague. Lisboa: Arte Plural.

Tão bom, sentir aquele arrepio na espinha provocado por palavras que nos trazem histórias tétricas. Ainda sabe melhor se das páginas se levantar um ambiente soturno de velhas casas a ranger, florestas cujas árvores retorcidas intimidam quem as atravessa e crianças malévolas brincam na distância. Estes contos de terror mergulham-nos num escuro mundo gótico através dos olhos de Edgar, um rapaz apaixonado pelas histórias contadas pelo seu tio Montague, que talvez não seja seu tio, e que talvez já tenha sido tio dos seus pais e continuará a ser um tio a viver numa casa decrépita cheia de mistérios muito depois de Edgar desaparecer.

A biblioteca da casa está cheia de curiosos artefactos e todos têm uma história macabra que arrepia. Temos o rapaz que igonra o aviso de não trepar a uma árvore. Não cai, ficará a fazer parte da árvore. Ou a falsa vidente que acaba por se ver aprisionada numa casa de bonecas que é a réplica da casa onde foi tentar um assalto aproveitando a credulidade da dona da casa mas sendo apanhada pelo fantasma de uma irmã falecida. A rapariga ostracizada numa festa que partilha um esconderijo com o fantasma húmido da vítima de um horrendo assassíno. O jovem entediado que numa aldeia turca consegue finalmente interessar-se por uma criatura que é um djinn assassino. A escultura possuída por um demónio que vai passando de vítima em vítima, escolhendo um inocente rapaz cujo destino será mortífero. O rapaz que num acesso de cupidez decide roubar o ouro a uma velhota que está sempre a aparar as suas árvores e como castigo é transformado numa árvore a ser aparada. Estas e outras são as histórias nesta colectânea de contos à qual nem falta um misterioso anfitrião para nos narrar as tristes desventuras dos azarados personagens.

Priestley mistura de forma muito elegante o conto gótico de sobrenatural, a história moralista e o relato de terror clássico com uma linguagem simples mas eficaz. São terrores bem contados, sempre surpreendentes, e que encantam pelo cuidado na construção de um cenário grotesco na mente do leitor. Numa linguagem muito elegante e com um estilo narrativo que cativa o leitor, estes contos de terror encantam pelo arrepio que provocam na espinha daqueles que se atreverem a lê-los. Uma excelente proposta na vertente mais tenebrosa do fantástico constante do Plano Nacional de Leitura.

sábado, 21 de setembro de 2013

A Estranha Vida de Nobody Owens



Edição portuguesa da Presença: A Estranha Vida de Nobody Owens.

A Estranha Vida de Nobody Owens, cujo título original é The Graveyard Book, pega num velho tema de Gaiman: a viagem enquanto processo de descoberta. Esta passa-se toda num mesmo local. A verdadeira viagem é o crescimento do personagem. A obra passa-se num cemitério, que alberga uma colecção eclética de personagens falecidas e um muito especial, o jovem Nobody Owens, que se refugiou no cemitério quando ainda mal podia andar e foi adoptado pelos fantasmas que habitam por entre os túmulos e guardado por um guardião que nem está vivo nem morto. A família real de Nob, como o rapaz é conhecido, foi assassinada por um assassino misterioso. As mortes tiveram um objectivo: travar o nascimento de uma criança capaz de viver na fronteira entre a morte e a vida e que ameaçaria a existência de uma ordem tenebrosa e misteriosa. Num retoque típico de romance fantástico, é precisamente a acção levada a cabo para travar a ameaça que cria a ameaça que destrói aqueles que a temem. Os vilões nunca aprendem a ficar quietinhos.

É a prosa de Gaiman com o seu estilismo poético o que mais fascina o leitor. A história desenrola-se com uma certa previsibilidade esperada. Com personagens que brincam com as convenções do género e uma facilidade na elegância da liguagem que faz parecer simples algo que é muito difícil de conseguir, A Estranha Vida de Nobody Owens é uma leitura que só se deixa terminar quando se vira a última página e se lê a última palavra, desapontado porque... terminou o mergulho em mais um mundo fantástico criado pelo maior escritor contemporâneo de fantasia. Neil Gaiman é um mestre da literatura fantástica que está no auge das suas capacidades. Encontrou a sua fórmula e explora-a, fascinando os seus leitores. Muitos são os escritores que encontram o seu nicho, mas são poucos os que o conseguem fazer com genialidade. Gaiman pertence a este reduzido grupo.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Little Brother: O Futuro Já Começou


Quando é que um romance de ficção científica é também um manual de sistema operativo? Neste Little Brother: O Futuro Já Começou, por detrás de uma aparentemente inócua história de um rapaz que se vê em aventuras e desventuras enquanto combate injustiças, está uma potente reflexão sobre privacidade, poder dos media, direitos e liberdades individuais, equilíbrio entre os poderes dos estados e direitos dos cidadãos, e aproveitamentos políticos da paranóia associada à guerra ao terrorismo.

Rebusca, intencionalmente, os estereótipos de injustiça absoluta aplicada ao desventurado herói, que tem de sofrer os piores percalços, as mais gritantes injustiças e até tortura numa luta em que os valores da liberdade acabam por triunfar. É uma clássica história de luta do bem contra o mal, só que aqui o bem são os hackers libertários da cultura digital e o mal as legislações opressivas levantadas pelos estados em nome da segurança.

Há um objectivo expresso por pelo autor, Cory Doctorow: ensinar os jovens leitores a usar a tecnologia digital, apropriando-se dos meios tecnológicos para afirmar a sua liberdade individual. Utiliza a literatura juvenil para informar e galvanizar os espíritos sobre temas quentes da actualidade, ligadas à privacidade, segurança online, e as lutas entre uma cultura livre e os interesses políticos e económicos que alegam necessidades imperiosas para imporem limitações que ultrapassam o razoável.

Este autor é um conhecido activista dos direitos digitais, notório pela acérrima defesa da cultura livre . Publica habitualmente os seus livros em formatos tradicionais e também sob licenças creative commons para download sem restrições.

Mais do que uma história, este livro é um manual de subversão. Na narrativa da luta contra as injustiças do jovem hacker ético do livro, Doctorow explora com profundidade formas de luta social e tecnologias que defendem as liberdades e direitos individuais. Enquanto nos compadecemos com a luta sem quartel do jovem Marcus, M1k3y no mundo online, contra os poderes instituídos dos sistemas escolares restritivos, que sobrepõem a indotrinação sobre o espírito de livre arbítrio, e contra as agências governamentais que em nome da segurança atropelam os mais elementares direitos humanos, aprendemos sobre criptografia, o espírito da cultura hacker (que não, não é prejudicar mas sim colocar nas mãos dos utilizadores o controlo da tecnologia que utilizam), smart mobsflash mobs, cultura livre, movimento opensource, redes sem fios, direitos civis e novas formas de organização à margem da tradição partidária potenciadas pelas tecnologias digitais.

Misto de história juvenil com manual de instruções para derrube inteligente de regimes totalitários, Little Brother vale essencialmente pela profundidade com que aborda, para um público juvenil, temas que o impacto da internet nos sistemas sociais, políticos e económicos tornaram basilares nas lutas pelo controle da sociedade do presente. É um livro escrito com o propósito expresso de fazer pensar, o que já de si é altamente louvável.

A edição portuguesa está editada pela Presença. Os leitores mais fluentes em inglês podem ler gratuitamente este livro, disponível no site do autor: Little Brother.